CASA FORTE | 2010-2011

Centro Cultural Banco do Nordeste, Sousa, Brasil | 2010

Centro Cultural Banco do Nordeste, Juazeiro do Norte, Brasil | 2011

Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza, Brasil | 2011

Curadoria: Marcelo Campos



1. Casa Forte | 2006

Acompanhei a distância, a demolição da casa dos meus pais, no Recife. As imagens que recebia por e-mail eram impactantes: uma delas mostrava a sala onde preferíamos nos reunir. Sobrepus à sua imagem sem vida uma outra, em movimento, captada 25 anos antes, na qual as crianças brincam na água ou tentam se salvar do afogamento. Era 25 de dezembro, e o vizinho escutava músicas de Natal.

  • imagem: 1’48”, som 5’35, projeção em loop, edição de 5 + 2 PA
  • concepção e filmagem: Renato Bezerra de Mello
  • OUTRAS EXPOSIÇÕES: “Vuelvo al sur”, L’Été Photographique, Centre de Photographie de Lectoure, França

2. Não sei como consegui viver todos esses anos sem você | 2010

Com esta obra trago à memória a casa da minha infância, no Recife: os azulejos ibéricos, presentes na moderna arquitetura brasileira; e as cadeiras populares, com seu balançar-se em varandas e calçadas, entre familiares e amigos.

  • transferência por carbono, papel oriental
  • 75 x 300 cm

3. Desapareceu alguma coisa que é muito pouco e, por isso, infinitamente muito | 2004-12

O papel-carbono, material recorrente na minha prática artística, guarda a memória daquilo que transfere e multiplica. Nestas folhas, encontram-se vestígios de desenhos e escritos distintos, numa referência aos trabalhos em que utilizei o material.

  • papel-carbono
  • dimensões variáveis

4. Imagino que estou fora deste lugar | 2010

Nesta obra trago para o desenho detalhes arquitetônicos dos lugares onde vivi. Portas, janelas, treliças, gradis, escadas: elementos vazados, lugares de passagem e atravessamentos.

  • grafite sobre papel vegetal, 57 desenhos
  • 13 x 18 cm, 10 x 15 cm e 9 x 13 cm

5. Menina pulando corda | 2010

Nesta sequência de imagens, que extraí de um vídeo amador realizado em 1988, a criança surge de forma inesperada e rouba a cena da qual seria personagem indesejável. Seu aparecimento fugidio e o seu movimento encantatório captaram o meu olhar e outros sentimentos.

  • ampliação em papel algodão
  • 75 x 110 cm, 100 x 110 cm, 80 x 110 cm, 90 x 110 cm e 50 x 110 cm
  • OUTRAS EXPOSIÇÕES: “Distantes mundos / próximos lugares”, Museu de Arte Contemporânea do Ceará, Fortaleza / “3 X 4 / Efrain Almeida”, Centro Cultural Banco do Nordeste

6. Tanto mar, tanto mar | 2000-11

Motivado pela solidão – numa longa estada fora do Brasil –, comecei a escrever um diário pessoal em cartões-postais. O processo de escolha, escritura, postagem e recebimento dos cartões foi reconfortante, e fez lembrar a infância, quando colecionava selos e cartões não endereçados a mim, e fantasiava as viagens que ainda não fazia.

  • cartões, carimbos e selos postais / Envelopes de papel cristal e Kraft
  • dimensões variáveis
  • OUTRAS EXPOSIÇÕES: “Déambulations”, Centre de Photographie de Lectoure, França

7. Não acharás novas terras, tampouco novo mar. A cidade há de seguir-te | 2010

Nestes vídeos mostro, num movimento repetitivo e monótono, as imagens dos cartões-postais que compõem um dos meus diários, uma das minhas coleções de coisas sem importância. Dados a ver de maneira aleatória, os cartões são como rastos dos caminhos que percorri, ao longo de alguns anos.

  • nove vídeos com 45’ cada um, projeção em loop de conjuntos de três, edição de 5 + 2 PA
  • concepção e filmagem: Renato Bezerra de Mello
  • edição: Daniel Bardusco

Fotografia: Renato Bezerra de Mello



CASA FORTE

Marcelo Campos

2011

Na produção do artista Renato Bezerra de Mello os guardados da casa, as imagens registradas em fotografias e vídeos, além da representação onírica de situações fantasiosas, frequentam o universo dos desenhos, vídeos, objetos, stills. Renato alia reminiscências a uma subversiva atitude de desintegração dos vestígios do lar: taças quebradas, papéis com rabiscos quase ilegíveis. Na exposição “Casa Forte”, busca-se um diálogo atualizado, no qual a arte contemporânea de Renato Bezerra de Mello possa constituir interpretações, ao mesmo tempo amplas e particulares, da casa, da família, mas também do sentido de lar que guardamos nas nossas subjetividades.

Casa Forte é o nome do bairro de Recife onde a casa que deu origem ao projeto existiu. Renato presenciou, pesquisou e vivenciou os dias de ascensão e o ocaso em que a residência familiar se tornara ruína. Mas, aqui, tudo é refeito sem a tentativa óbvia de resgate do tempo perdido. Agora a casa existe como fortaleza na memória da arte que insiste em tratar do etéreo, do transitório, da infância. Como na atitude do escritor Marcel Proust, criamos pequenas âncoras para içar do cotidiano sentimentos que compartilhamos em quaisquer abrigos: saudades, revolta, medos. Sentimentos fadados à instabilidade.

Na exposição, são apresentados desenhos feitos em carbonos com cenas da casa que se misturam aos azulejos, ao mobiliário e às pessoas que a frequentavam. Em outra série de desenhos, com finos traços sobre papel vegetal, vemos referências a detalhes de ambientes arquitetônicos marcando impregnações do silêncio: escadas, umbrais, guarda-corpos, parapeitos. A fluidez do vazio corrobora tanto com uma espécie de melancólica reflexão sobre a desumanização da arquitetura, quanto com a esperança de dotar os lugares de anima, comunhão familiar, tradições inevitavelmente com data de validade. A infância aparece na instabilidade da menina, ampliada na fotografia, criando uma ação cíclica e lúdica de pular cordas. O vídeo que dá título à mostra encena parte da desagregação da Casa Forte mesclando cenas de brincadeiras e alegrias com o impacto de uma sala congelada no tempo. Apresentamos, assim, metáforas para nossa atitude diante do destino.

“O Tejo não é o rio que corre na minha aldeia”, afirmara Fernando Pessoa. A consciência de ir em busca do desconhecido também atravessa esta exposição. Sim, o Tejo é bem maior do que o rio que corre em qualquer aldeia. Mas, Renato Bezerra de Mello vai à procura de adventos memoráveis, em viagens, em museus, em imagens eróticas, quebrando, assim, as afetações e os bons costumes das regras civilizatórias. No trabalho em que o artista apresenta centenas de cartões-postais de viagens para dentro e para fora de seu país natal, vemos a ambivalência do estar no mundo. Saber que existe o encantamento por obras-primas é, segundo observamos nas imagens, tão importante quanto colecionar banalidades. Aqui o memorável cria avessos e aversões; insultos, melancolias, êxtases, catarses são escritos nos cartões, pelo artista, que os envia a si mesmo. Como numa ação performática, o correio traz a mensagem de um dia para o outro, postadas do mesmo lugar onde reside o artista, ou atravessa mares, encontrando-o longe. A surpresa, a sabotagem, o mistério que já vem com o fim previsível.

Para título da série de postais, Renato escolhe excertos de um poema de Konstantinos Kaváfis e nos dá pistas sobre suas conclusões: “Não acharás novas terras, tampouco novo mar. A cidade há de seguir-te”. Aqui reside não somente a contradição da busca do artista por novos portos, mas também a constatação existencial e antropológica dos caminhos da mobilidade. De que adianta guardar, lembrar, preservar? “Cada coisa tem um instante em que ela é”, diria Clarice Lispector embevecida com a cinza das horas. A cidade, então, já nasce para desfazer as tramas que pretendem a imortalidade, o âmbar, os fósseis. Portanto, “Casa Forte” é nome encantado, pretendendo a magia, o feitiço, tentando a invocação. Porém, a urbanização do mundo se estende sobre casas, rios e mares. A casa jamais será tão forte quanto o nomadismo, a mobilidade. Construir é um paradoxo para um “fenômeno que não corresponde a um novo sedentarismo, mas a novas formas de mobilidade”, afirmará Marc Augé. É essa contradição que interessa a Renato Bezerra de Mello, como fazer arte com o que já não é mais, o que já foi demolido, substituído? E, além disso, Renato ora acumula, como os carbonos, ora descarta, como as taças de cristais.

Na viagem ao Sertão, como coleta de imagens para outro trabalho do artista iniciado há alguns anos, capturávamos ciclistas, entrevistos das janelas dos carros e táxis em movimento. Na surpresa do clic, qual a da campainha ou dos escaninhos que poderiam trazer cartões de si para si, tentávamos enlaçar a velocidade dos passantes, dos que tinham algo a fazer, dos que venciam a inércia do tempo para objetivos diversos, intuídos, mas desconhecidos por nós. Como resultado, imagens erráticas, vazios intervalares. Entre o voyeur e o transeunte, a mesma moral, a mesma constatação: o Tejo existe em qualquer cidade, como busca, como fabulação e “a esta cidade sempre chegarás”.