MIGALHAS DA INFÂNCIA | 2011

Marsden Woo Gallery, Londres, Inglaterra

Curadoria: Tessa Peters e Maria Donato



1. Pra ver o que restou | 2011

O desenho sobre a concertina surgiu do desejo de experimentar diferentes densidades de grafite. Fruto da imaginação suas casas remetem ao universo das histórias infantis, assim como àquele das pequenas cidades de interior, com seus casarios em terra e cal.

  • concertina, grafite de diferentes densidades
  • 24 x 240 x 25 cm

2. Fortaleza, fortitude, fortress | 2011

Nesta obra procuro transcrever, entre escritos e desenhos, a surpresa que causou o comentário da minha mãe sobre o seu envelhecimento, e o sentimento de “não se sentir mais a fortaleza que sempre acreditou ser”.

  • velhas folhas de papel, nanquim branco, alfinete de costura
  • 297 x 420 cm

3. Brincar de novo | 2011

Ao enveredar pelos caminhos da infância, desgastei, com o auxílio de lixas d’água, pequenos cubos de giz de sinuca, recriando uma coleção perdida de bolas de gude.

  • giz de sinuca colorido
  • dimensões variáveis
  • OUTRAS EXPOSIÇÕES: “Errático, errante”, Galeria Inox, Rio de Janeiro, Brasil / “Abre alas 08”, Gentil Carioca, Rio de Janeiro, Brasil

4. Mes enfants, mes enfants | 2005-11

As palavras de uma criança, Téo, denunciam a sua presença em volta da mesa, descobrindo encantado uma coleção de pinguins em miniaturas, que me pertenceu. O movimento repetitivo do vídeo acompanha os seus movimentos e os do pinguim João Bobo, que é mesmo feito para girar.

  • vídeo com 1’35”, projeção em loop, edição de 5 + 2 PA
  • concepção e filmagem: Renato Bezerra de Mello
  • edição: Daniel Bardusco

Still

5. Macaxeira | 2011

Em um movimento de contínuo vaivém, este vídeo apresenta o meu olhar atônito diante das ruínas de um dos lugares da minha infância. Macaxeira é o nome de um bairro da cidade do Recife, onde havia uma fábrica de tecidos que pertenceu ao meu pai e ao meu avô.

  • vídeo com 40”, projeção em loop, edição de 5 + 2 PA
  • concepção e filmagem: Renato Bezerra de Mello
  • edição: Daniel Bardusco

Still

6. Caran d'Ache | 2011

Na minha infância, os estojos de lápis Caran d’Ache eram ainda mais raros e caros do que nos dias de hoje, e eu os guardava como tesouros, ao ponto de não usá-los. Nesta obra reconstituo a frente e o verso de um estojo que nunca tive, já que o motivo floral não seria recomendado para um menino.

  • camadas sobrepostas de papel vegetal 45g, bastão a óleo
  • 297 x 850 cm

Fotografia: Philip Sayer



MARSDEN WOO PROJECT SPACE
15 setembro – 30 outubro 2011

Entrevista a Tessa Peters e Maria Donato

– Você deu para esta exposição o título “Migalhas da infância”. É uma citação? Se for, qual é a sua origem?

O título da exposição vem de um capítulo do livro A eternidade o que é?, obra póstuma de Marguerite Yourcenar, uma autora que aprecio muito. Tenho o costume de procurar nomes de exposições e obras nos livros que leio, nas músicas que escuto, nos filmes que vejo.

Neste caso achei que esse título casava bem com a ideia de vários trabalhos – são seis – em um espaço não tão grande. Eu estava pensando na criança que, na intimidade do seu quarto, brinca um pouco com tudo ao mesmo tempo.

Então, tanto o título quanto a escala de boa parte das obras remetem ao tema de lembranças da infância. Essas lembranças são, de alguma forma, autobiográficas?

Sim, mas no sentido em que a autobiografia é sempre uma criação, uma ficção.

– As duas obras em vídeo compartilham um sentido de enfática repetição, porém elas contrastam nitidamente em termos de tema e carga emocional. Mes enfants, mes enfants nos mostra um mundo íntimo e restrito, ao passo que Macaxeira, um vídeo feito dentro de um edifício em ruínas, deixa o espectador ver além do espaço, de tal maneira que os fragmentos do teto pareçam nuvens ou estrelas no céu. Quais são as ideias subjacentes nessas duas obras?

“Macaxeira”, que em inglês quer dizer manioc, é o nome do bairro onde havia uma fábrica de tecidos que pertenceu ao meu avô e ao meu pai, no Recife, cidade onde nasci, no Nordeste do Brasil.

Recentemente estive lá e visitei as ruínas desse lugar tão importante para mim. Tudo me entristeceu e encantou ao mesmo tempo. Este vídeo é um fragmento do meu olhar atônito.

O teto pintado de azul me pareceu um céu e as placas de gesso, lindas nuvens. Essas cores, porque também tem o verde, fizeram-me pensar nas casas caiadas do Nordeste, que são belíssimas. A pintura com cal é muito bonita e infelizmente está desaparecendo.

Mes enfants, mes enfants mostra o encantamento de uma criança, Téo, descobrindo uma coleção de pinguins em miniatura, que me pertenceu. A repetição surgiu naturalmente do seu movimento em volta da mesa; do pinguim João Bobo que é mesmo feito para girar; e por fim, das palavras encantatórias da criança e do som da caixinha de música que o acompanha.

A repetição, porém, é uma constante no meu trabalho, não somente nos vídeos, mas também em desenhos e bordados.

O desenho em grafite Para ver o que restou tem um toque de conto de fadas. Essas casas, desdobradas em concertina, realmente existem ou são o fruto de sua imaginação?

As casinhas da concertina são fruto da imaginação. Elas nos fazem pensar nas pequenas casas das histórias infantis mas também naquelas de verdade que podemos encontrar no interior de qualquer país. Eu já vi algumas delas aqui na Inglaterra.

Elas são modelos para outras que quero construir em madeira, também pequenas, para depois atear fogo.

As outras obras sobre papel incluem o díptico Caran d’Ache e os textos Fortaleza, fortitude, fortress. Que espécie de lembranças da infância é evocada por essas obras?

Há algum tempo quero trabalhar com meus lápis e pastéis Caran d’Ache, o que começa a acontecer agora. Quando criança eles eram realmente raros e caros, o que me inibia, pois achava que eles me diferenciavam dos colegas de escola, e eu não queria que isso acontecesse.

Aqui eu reconstituo a imagem de uma caixa de lápis que eu nunca tinha visto antes. Adoro o fato de ela ser recoberta de flores, pois nas caixas de lápis que tive quando criança figuravam sempre as montanhas nevadas da Suíça.

Como já mencionei, quando criança interessavam-me os padrões dos tecidos que eu via quando visitava a fábrica da família com o meu pai. Em casa desenhava novos padrões, muitas vezes floridos, mas tinha vergonha pois achava que aquilo era coisa de menina. Essa ideia persiste ainda hoje, não é mesmo?

A obra Fortaleza, fortitude, fortress foi motivada por uma frase que recentemente escutei de minha mãe. Ela está completando 80 anos e me disse não se sentir mais a Fortaleza que sempre acreditou ser.

Resolvi, então, passar para essas folhas de papel a surpresa causada pelo que escutei, transcrevendo os diferentes sentidos da palavra “fortaleza” e de outras com as quais a associei. O papel cor-de-rosa, que eu guardava há anos, assim como o fino traço branco são uma referência à delicadeza da minha mãe.

Eu entendo que as memórias aqui evocadas não são apenas minhas ou da minha infância. Elas são de todos nós e nos acompanham por todo o tempo.

Você já nos contou que as bolas de gude da obra Brincar de novo, todas espalhadas no chão como um jogo em andamento, foram esculpidas a partir de cubos de giz para tacos de bilhar. Qual é o significado da sua escolha de material?

Há uns três anos, cascavilhando papelarias numa cidade de interior, comprei uns cubos vermelhos de giz de sinuca, até então achava que eles só existiam em azul. Ao voltar para o ateliê deixei-os sobre uma das mesas de trabalho, onde ficaram até há bem pouco tempo, esperando algo acontecer.

Quando vocês escolheram a concertina para esta exposição, eu resolvi enveredar pelo caminho da infância, chegando a essa ideia de transformar os tais cubinhos de giz em bolas de gude.

No comércio, descobri que existiam várias cores, o que de início não me interessou, pois eu estava pensando a exposição em diferentes tons de grafite. Mas mudei de ideia, e as cores começaram a entrar em todos os trabalhos.

Eu acho que esse material – como outros com os quais trabalho – está caindo em desuso.

Criança, eu gostava mais de passar o giz na ponta do taco de sinuca do que propriamente de jogar. Caía um pozinho que sujava as mãos e cobria as coisas em volta de azul. O atrito entre o giz e o couro gerava um pequeno desconforto.

Os significados da escolha desse material são muitos, nada muito preciso.