DE ONDE OS RIOS SE ENCONTRAM PARA INVENTAR O MAR

Renato Bezerra de Mello

Lisboa, 2014

 

Da cidade onde nasci, Recife, ao nordeste do Brasil, tomei um velho ditado, que ligeiramente alterado, utilizei como título para a minha exposição no 18o Ciclo de Exposições do Carpe Diem Arte e Pesquisa / CDAP.

Já há alguns anos, ou talvez desde sempre, venho observando a praia e o mar de Boa Viagem, lugar onde nasci e onde ainda hoje me reconheço quando ali retorno, depois de uma partida de mais de trinta anos. Talvez por isso, interessam-me mais os dias de chuva, quando as nuvens cobrem quase tudo e a chuva martela, insistentemente, as janelas da casa, transformando a paisagem.

Quando fui convidado a desenvolver um projeto para o CDAP, encontrava-me no Recife, e pensei imediatamente em trazer para Lisboa aquele mar. Entretanto, passado esse primeiro momento, percorri outros caminhos de procura, lendo, especialmente, sobre o terremoto de 1755, sobre a história da viagem da grande Biblioteca dos Reis de Portugal, e sobre a história da leitura.

E assim, quase sem perceber, voltou o mar ao meu universo. Desta vez, pelas centenas de rolos de papel vegetal que fui cobrindo com diferentes tons de azul, numa alusão às infinitas cores e ao movimento incessante dos mares e oceanos. Observar o mar, assim como o gesto simples de traçar riscos sobre folhas de papel, estendeu o meu sentimento de espaço e tempo, criou um lugar de calma, no interior do qual pude me espantar pela sua simplicidade.

A obra que surgiu entrecruza tempos e lembranças; manifesta questões relativas à memória e ao esquecimento; dá-se à livre associação de ideias. E refere-se a uma infinidade de coisas que talvez possa apenas adivinhar, sem jamais ter a certeza do que são.

Ocupando a antiga cozinha do Palácio Pombal – talvez a mais bonita e misteriosa sala do lugar –, fico pensando em quando a Biblioteca dos Reis de Portugal, já no Rio de Janeiro, expandiu-se pelas catacumbas de um convento carmelita. Serão meus mares e oceanos também obras raras? Documentos secretos de uma biblioteca perdida, guardados em lugares insólitos?

Sobre uma longa mesa de madeira, situada entre as colunas da antiga cozinha, os rolos de papel estão dispostos lado a lado, uns sobre os outros: azuis infinitos, entre o verde e o violeta. Na pequena sala ao lado, sobre os escombros do lugar, três monitores de TV apresentam Boa Viagem em dias cinzentos, e o seu mar inventado pelos rios que cortam a cidade.