NEM MAIS, NEM MENOS

Dorothée Tramoni

2005

Renato Bezerra de Mello conta uma história plural que ele dispersa e dissipa intencionalmente. Trata-se, entretanto, de uma história bastante simples, aquela de uma grande família de Pernambuco, no Brasil. É essa história, quase comum, que faz a riqueza e a especificidade de sua obra. É sua matéria-prima. Ele a trabalha, a remói, de maneira a dar um devir aos legados, de maneira a não deixá-los desaparecer, ao menos não de imediato.

O enamorado de Roland Barthes extrai “figuras da reserva (do tesouro?), de acordo com as carências, as injunções ou os prazeres do seu imaginário. Cada figura explode, vibra sozinha como um som despojado de toda melodia – ou se repete, até cansar, como motivo de uma música sempre igual”.[1] Renato Bezerra de Mello, por sua vez, extrai de sua herança as figuras do imaginário que copia à exaustão. Não cópias diretas, ele não é um falsário. Não. Cópias de cópia de cópia. Para fazê-lo, usa e abusa do calque, do carbono, do cristal ou de negativos que permitem copiar, recopiar, calcar ou decalcar. Materiais frágeis, destinados a mudar, envelhecer e desaparecer. Matérias transparentes, quase invisíveis. Matérias intermediárias que servem de laço entre coisa dita e coisa pensada, imagem mental e desenho.

Rapidamente, a herança investe no espaço, com ele se confunde, e o magnifica. Quinhentos monóculos vermelhos e azuis pendem do teto “suspensos como um voo de pássaro”.[2] Mil folhas de carbono ou 1.650 cartões-postais, presos por alfinetes, adotam a postura de papel de parede. Duas mil folhas de papel cristal servem de cobertura e abrigo. Milhares de tirinhas de papel se estendem por sobre o solo como cascalhos. Ele invade discretamente. Mas seguramente.  A obra é proteiforme e numerária. E o número restitui à obra seu estatuto de tesouro. Uma peça, uma folha ou um monóculo não é nada, mas milhares têm um valor inestimável. Então, cada obra é feita de uma quantidade de fragmentos de todo tipo: bandeirolas, confetes, copos quebrados… São os fragmentos da história, na qual figuram palavras e coisas. Palavras que calcam coisas e inversamente. Palavras escritas para dizer “Ausência, Adorável, Afirmação, Alteração, Angústia…”,[3] coisas desenhadas para dizer “Coração, Cumulação, Compaixão, Compreender, Contatos, Contingências, Corpos…”[4] Palavras e coisas valendo por fragmentos de um discurso amoroso.

Renato, o enamorado, parece ter feito sua esta frase de Barthes: “As palavras nunca são loucas (no máximo perversas), é a sintaxe que é louca”.[5] Ele a desconstrói. Torna-a fluida, faz vê-la com palavras e coisas simples. Compreensíveis. Ao alcance de todos. Fotos de família, cartões-postais, fotos de férias, desenhos naïfs, rios… que ele esconde, espalha, fragmenta e oferece à partilha. Assim, para retranscrever a correspondência de seu pai e seu avô, ele utiliza papel-carbono, sobrepõe as folhas, insere-as em uma máquina de escrever, escurece-as, perfura-as, torna-as ilegíveis e deixa aparecer apenas signos.  Ou, ainda, cobre folhas de papel cristal com orlas e rios imaginários que o espectador apenas pode alcançar estendendo o braço, fazendo assim nascer o som do burburinho do mar. Da mesma maneira que um riacho ou um rio, suas obras escoam umas das outras. Naturalmente. Quase sem o querer. Quase sem o saber. Elas dão existência umas às outras como tantos afluentes e fontes.

Talvez porque cada palavra, cada coisa é portadora de uma história, sempre a mesma, essa de uma desaparição programada. Então, como para conjurar o destino, Renato Bezerra de Mello escreve e desenha maquinalmente, sistematicamente. Ele consigna, inventaria. Tudo ou quase tudo. Com nada ou quase nada. “Assim sendo é um enamorado que fala e diz:”[6] “Escrevo-me a mim mesmo porque sou livre, vaidoso e louco; escrevo-me para me apaziguar, para suplantar tua ausência; escrevo-me por medo de cair no vazio; escrevo-me para deixar alguns rastros”. Os rastros de um discurso amoroso. Nem mais, nem menos.

(Traduzido do francês por Marisa Flórido)

 

[1] BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Trad. Hortênsia dos Santos.  Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1998, p. 17.

[2] Laure Phelip.

[3] BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Op. cit.

[4] Idem.

[5] Idem, ibidem, p. 16.

[6] Idem, ibidem, p. 21.