INVENTÁRIO DO ESQUECIMENTO

Fernanda Pequeno

março, 2015

 

“O rastro inscreve a lembrança de uma presença
que não existe mais e que sempre corre o risco
de se apagar definitivamente”. [1]

 

O risco azul mascara o rosto capturado pela fotografia e enuncia expressões como: “esquecida”, “sem importância” ou mesmo “desconhecida”. Por outro lado, há algo de “procura-se” na fotografia que Renato Bezerra de Mello monta como pôster. O retrato apropriado pelo artista não identifica a mulher fotografada, mas sugere uma presença vicária. Ao invés de a identidade da procurada se revelar, as expressões faciais foram violadas, mascarando-a. Se toda imagem fotográfica é um vestígio (a presença do ausente e a ausência da presença), Esqueça-me evidencia ainda mais as ambivalências entre comparecimento e ocultamento, entre memória e esquecimento, entre o visível e o invisível, afirmando-se como um vulto.

A fotografia de Renato atua como metonímia de todo o Inventário do esquecimento por ele empreendido. Inventariar significa listar e descrever minuciosamente bens e, quase sempre, está relacionado à morte de um ente querido. O esquecimento, por sua vez, só pode ser analisado em sua relação com a lembrança, sendo ambos constituintes da memória. Na exposição, o artista chama atenção para o caráter de rastro da fotografia, do documento e da memória, salientando as dualidades implicadas nessa metáfora.

O rastro pode ser fruto do acaso ou da violência, deixado por um animal ou um criminoso em fuga. Quem deixa rastros não o faz intencionalmente, do mesmo modo que quem os decifra: detetives, arqueólogos, psicanalistas, artistas e poetas seguem pistas como quem decodifica um enigma. Como afirma Jeanne Marie Gagnebin: “rastros não são criados – como são outros signos culturais e linguísticos –, mas sim deixados ou esquecidos”.[2]

Em sua exposição, Renato relaciona modalidades de esquecimento, ao partir de um arquivo encontrado no lixo em Paris, formado por pastas coloridas que catalogavam histórias de mulheres que trabalhavam com prostituição na França. Ao apagá-lo, o artista acentua o efeito do tempo que age sobre cartas, fichas de anamnese, recibos, cheques, receitas médicas e fotografias, relegando-as à memória.

Encobertos por grafite, os documentos, papéis burocráticos e marcas privadas de Folhas em branco resistem ao apagamento. O seu acúmulo gera sombras que dificultam ainda mais a leitura, enfatizadas por densidades e texturas diferentes dos papéis. Na Antiguidade, as tábuas eram enceradas e utilizadas para a escrita corriqueira, pois eram facilmente apagadas e reenceradas. Quando prontas para reutilização funcionavam como tábulas rasas ou “folhas em branco”.

Enquanto isso, as pastas coloridas que armazenavam os papéis que identificavam e classificavam as subjetividades são recortadas até virarem fiapos na obra Nada, ninguém, coisa alguma. Ao gerar a acumulação de uma poeira colorida, nega-se a desaparição de seus rastros e a sua presença se afirma justamente pela ausência de identificação (nominal, temática, numérica etc.).

Do processo de cobrir os documentos restou Ouro negro, fragmentos de bastões de grafite que lembram meteoritos expostos em caixa, como pequenas e valiosas joias. Tais restos foram assim denominados porque nos primórdios de sua descoberta, o grafite era raro e extremamente valioso.

E assim, folhas inundadas de história são veladas pelo grafite, impossibilitando a leitura e a identificação; pastas que classificavam vidas são destruídas até virarem resquícios; o rosto violado é reenquadrado, isolado e ampliado; e bastões de grafite são quebrados, gastos e fracionados.

É desse modo que todo o material que compõe a exposição foi destituído de categoria e rearranjado. Como quem recompõe rastros, Renato Bezerra de Mello erige uma espécie de memorial dessas subjetividades descartadas. A partir do que foi rechaçado pela instituição que deveria zelar pela vida e história dessas mulheres, o artista age como inventariante de maneiras e possibilidades de memórias. Afirma, então, um gesto contra o apagamento. Afinal, é no esforço pelo esquecimento que as lembranças, muitas vezes, ficam mais evidentes.

 

[1] GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: 34, 2006, p. 44.

[2] Ibidem, p. 113.