ENTRE CÉU E ÁGUA

Marcelo Campos
Setembro, 2016

 

é preciso que se esqueça de tudo aquilo que lhe ensinaram os mapas tão completos, e que comece a apagar sobre a carta que tem na cabeça, a forma, a aparência geral, até a presença do continente americano.  Aquele que souber trazer para a sua alma a obscuridade e as incertezas daquele século distante poderá ressentir a surpresa, o entusiasmo de toda uma geração quando, naquilo que era até então o infinito, se esboçou, pouco a pouco os primeiros contornos de uma terra insuspeita.

(Stefan Zweig. Amerigo)

 

Vida e narração configuram uma existência indissociável. Fatos narrados e vividos se confundem na emissão da voz, conjecturando-se ofertas de sentido para a troca de confidências, a organização do caos da experiência, o drama dos sentimentos cotidianos. De outro modo, os desenhos da escrita tecem sinais para espectadores privados (nos diários, nas cartas) ou públicos (em ofícios, leis, livros). Escrita e desenho se fundem, por exemplo, na tentativa colonialista de criar limites em terras, ilhas, continentes nas práticas cartográficas.

A exposição “Entre céu e água”, de Renato Bezerra de Mello, parte do impacto dessa troca intersubjetiva entre relato, empiria e imaginação, prática recorrente nos trabalhos do artista. Ao se fundamentar nos modos de estender o tempo da práxis, o artista procura as ações diretas, como desenhar, coser, escrever e, a partir disso, combate o dispêndio, aproveitando-se dos restos, das sobras de papel, das cargas de canetas, dos avessos, dos invólucros.

Aqui, o artista se interessa pela nomeação da América, fato que confere à Américo Vespúcio não somente uma homenagem, como era comum nos tempos de Colombo, mas o coloca na condição de narrador que não atribui o achamento de terra ao engano, ou como desvio para se chegar às Índias, como na história de Cabral. Renato pesquisou mapas de diversas épocas e os colocou em bordados sobre linho, exibindo-nos modificações morfológicas dos imaginários de diversas épocas, alterando-os, consideravelmente, com a inclusão das duas costas, Atlântico e Pacífico.

Ao mesmo tempo, nos bordados, vemos os monstros marinhos das primeiras cartas náuticas. Tais relatos nos impactam tanto pela construção imaginária de seres impossíveis, quanto, depois de aportar, pela difícil aceitação dos que já estavam em terra. Em um dos trabalhos, os nativos são referenciados com um mapa do Brasil formado por mais de mil etnias ameríndias.

Na exposição, Renato Bezerra de Mello também se interessou pela possibilidade de agir no pequeno, nos gestos manufaturados, estimulado por outra grandiosa história, a de uma biblioteca pertencente à família real portuguesa que atravessaria o Atlântico quando da vinda de d. João e de parte da corte, em 1807. Com os percalços da pressa de embarcar, diante das iminentes invasões de Portugal por tropas francesas, como nos explica Lilia Moritz Schwarcz, a biblioteca foi deixada no porto de Lisboa. Porém, o príncipe regente exigiu a vinda da Real Livraria três anos depois.

Renato Bezerra de Mello seleciona, a partir dessa impactante imagem, um relato: a carta do bibliotecário Luiz Joaquim dos Santos Marrocos ao pai, um dos embarcados na travessia, narrando as angústias, o horror, o incômodo da empreitada.

Com isso, vemos céu e água metaforizarem-se em trabalhos pontuais e instalações em que “avistamentos” diversos criam o imaginário curioso da expectativa pelo porvir, em mapas, cores marítimas, monstros, palavras que misturam as vozes do invasor e dos nativos. A narrativa, assim, exterioriza-se, enviesadamente, em cargas de canetas azuis, etiquetas, papéis amarelecidos, textos. Tais exterioridades são partilhadas com o espectador como cartas, apresentadas ou esquecidas, evidenciadas na individualidade ou superpostas em opacidades.

A exposição “Entre céu e água” trata, sobretudo, da possibilidade do relato em conferir sentido aos intervalos de tempo quando, aparentemente, não percebemos o que se passa.